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Ivan Endogurov
George Monastery (Cape Fiolent). Oil on canvas. Irkutsk Regional Art Museum
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"Queridos pais:
Agora eu entendo porque a Clara saiu de casa. E porque eu sinto falta dela a maior parte do tempo. Ela compreendeu algo que está custando minha vida no momento. E tenho certeza que quando vocês entrarem no meu quarto mais tarde vocês vão tentar entender. E isso é bom. Quem sabe assim a gente evita que outros filhos acabem como eu. Ou outros pais sejam como vocês. Não culpo vocês por tudo. Vocês tentam nos mostrar o quão dura a vida pode ser, ou melhor: é. Mas vocês acabam exigindo demais de nós. E nós acabamos exigindo ainda mais de nós mesmos, porque qualquer coisa é melhor do que chegar em casa e ser chamado de irresponsável, inútil, idiota, burro e outros nomes que lhe vieram na mente na hora. Vocês não sabem o quanto nos machuca ouvir tudo isso. Eu gostaria que vocês vissem que eu era um dos bons. E que futuramente eu iria me tornar alguém que vocês se orgulhariam. Eu não bebo. Não fumo e nem uso drogas. Eu mal saio em festas. Leio tudo que me derem. Estudo pra caramba, porque se eu não entrar em uma boa faculdade eu vou ser chamando de vagabundo. Então eu estudo mais do que eu normal. Eu ajudo a dona Zélia com as compras e na maior parte do tempo vocês nem notam que eu estou em casa. Eu sou um Harry Potter, só que com pais biológicos. Acho que tudo começou a me afetar de uma maneira mais invasiva quando a Clara saiu de casa. Ela era o contrario de mim. Ninguém sabia onde ela estava. Não tinha hora pra voltar pra casa. Bebia umas que outras ás vezes. As notas dela beiravam ao zero. Eu nem sei como ela acabou a escola. Vocês a culpavam por tudo. Enquanto eu era o filho prodígio e bem sucedido. Eu era tudo que ela odiava. Vocês jogavam na cara dela tudo de ruim e nunca estavam lá quando ela realmente precisava. E talvez seja por isso que nós sempre brigávamos. Ela não me reconhecia como irmão, porque vocês não a reconheciam como filha. Vocês percebem o que fizeram com ela? Ela estava à beira do precipício precisando ser salva e a única coisa que vocês faziam era dar motivos do porque de ela estar lá. Foi então que a Clara saiu de casa. E eu que sempre estive logo atrás dela na fila do “viver ou morrer” fui empurrado de forma sórdida para ocupar seu lugar. E de uns tempos pra cá pude finalmente compreender o inferno que ela passou. Por isso gravem bem o que vou dizer nos versos a seguir certo? Nós somos frágeis. E nós precisamos ser salvos a cada minuto. Não importa se temos 6 ou 17 anos. A gente já tem pessoas demais nos julgando. Por nossos erros. Por nossos acertos. Qualquer coisa que escolhemos nos leva a ter mil armas apontadas para nossa cabeça. Mil olhares acusadores. Mil tapas na cara. Vocês sabem como é difícil arranjar alguém que esteja disposto a dividir o peso? Alguém que não fuja quando o universo resolver nos ferrar? Quando acordamos nosso único desejo é dormir. Dormir por dias. Anos. E por vezes nunca mais acordar. Porque a vida é um saco. E porque vocês na maior do tempo a fazem ficar pior. Sim, eu cometi erros. E sei onde eu errei e porque eu os cometi. Mais isso nem de perto é o pior. O pior é quando cometemos erros enormes e fomos assediados por todos por causa deles e quando chegamos em casa acontecem o mesmo em doses maiores. O pior é chegar ao lugar que supostamente deveria ser o teu porto seguro e não receber nem um abraço. E sim palavras que vão te fazer ficar menor e menor pelo resto da sua vida. Antes de dormir eu fico revirando na minha mente tudo que me disserem. E nenhum deles tem tanta importância quando ao que vocês disseram. E machuca. E me faz desejar que Deus tivesse dado outro filho pra vocês. Que tivesse poupado vocês de tamanho desgosto. A Clara era uma lutadora. A Clara era o exemplo nítido de fé e destreza. Porque ela aguentou tudo calada. Ela simplesmente ouvia e engolia. Até que chegou um ponto que tudo explodiu dentro dela. E eu não podia estar do lado dela, porque ela achava que eu era a causa de tudo aquilo além de vocês e de todo resto. Ela não tinha ninguém. Até que ela foi embora. E mesmo assim ninguém deu óbito, ninguém notou que ela estava morrendo há anos. O que eu quero dizer é que vocês são pais. E que só Deus sabe as responsabilidades que é preciso ter para nos mostrar ou tentar amenizar todas as coisas ruins. E que a gente enlouquece vocês fazendo tudo para ir em direção a elas. Por isso eu peço encarecidamente que não nos culpe tanto por isso. A gente tenta ser boas pessoas. A gente tenta ser o que vocês nos ensinaram a ser. Mas às vezes nos perdemos. E precisamos que vocês estejam do nosso lado para nos mostrar onde erramos. E não que nos joguem na piscina e digam: “nade”. A verdade é que não sabemos quem somos a maior do tempo. E convivemos com um sentimento de solidão horrível. Por isso parem de julgar a Clara. Ela precisa de vocês. Peçam desculpas, façam as pazes e salvem ela. Porque infelizmente, eu não tenho mais salvação. Acho que cheguei a um nível de solidão e interiorização tão grande a ponto de concordar com tudo que me dizem. Quando vocês encontrem essa carta, lembrem-se: Eu amo vocês. Apesar de tudo eu amo vocês. E gostariam que tivessem me amado ou demonstrado amor igual ou maior. Digam a Clara que eu também amo ela. E que cuidarei dela daqui em diante de um lugar diferente. Tentem não ser tão exigentes com o resto do mundo e com vocês mesmos. A vida é curta. Muito curta. Sou a prova disso. Não deixem que outros sejam também.
Com amor,
Cícero."
O suicídio de Cícero. Kehl, Luisa.   (via florestares)
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Pure Psychedelic Art
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